domingo, outubro 02, 2011

Amor: retalhos II

“Minha querida, o amor nunca é uma dependência, é uma abundância (…)”
“Cada ser tem o seu segredo, cada amor o seu código intransmissível. (…) Sobretudo, não procures no amor o caminho que ele não tem.
(…)
Tudo o que há para saber do amor é deslumbrada aceitação. Não se aprende a amar, Camila (...) Não há nada de justo nesse sentimento: a justiça, aliás, não passa de um espectáculo de ordenação do mundo, um circo que inventámos para substituir a irracional lei do coração.
(…)
O amor, Camila, consiste na divina graça de parar o tempo. E nada mais se pode dizer sobre ele.”
Inês Pedrosa, In “Nas tuas mãos”

domingo, setembro 04, 2011

Despojos de um almoço de Domingo

De regresso às coisas simples.

Houve um tempo em que não gostava do Domingo: achava-o um dia entediante e desprovido de interesse, que apenas fazia sobressair um dos defeitos mais proeminentes em mim – a preguiça. Era um dia que me dava dores de cabeça…

Com o avançar dos tempos fui descobrindo as pequenas delícias que um Domingo nos pode proporcionar. Sem a ideia preconcebida de um descanso imposto, fui-me deixando levar pelo abandono prazenteiro de me entregar ao que me reserva este dia da semana.

Hoje aconteceu um almoço. A primeira vez que cozinhei búzios. Em feijoada. A iguaria, sem falsas modéstias, revelou-se uma surpresa gastronómica.

Fica o testemunho visual dos despojos.

Os principais atores desta minha peça tiveram um papel crucial. Acho que o segredo do resultado final depende sempre deles: os ingredientes têm de ser de excelente qualidade. Tomate e cebola da horta, apanhados ontem, e búzios fresquíssimos. Chouriço e azeite cá do nosso Portugal. O feijão era de lata, certo, mas foi aberta com muito jeitinho… J. E o toque final: salsa também acabadinha de apanhar.

É realmente algo que me dá cada vez mais satisfação fazer: cozinhar.

Para o jantar, alhada de raia.

E, no entremeio, um Domingo calmo, a gozar o “cantinho mais lindo do mundo”: a minha casa.

domingo, agosto 14, 2011

Amor: retalhos

"(...) é no momento em que o instinto de acasalamento terminou o seu percurso que se inicia a oportunidade de amor genuíno. (...) O amor genuíno é mais voluntário do que emocional. A pessoa que ama verdadeiramente, fá-lo porque tomou a decisão de amar. Essa pessoa assumiu o compromisso de amar, quer o sentimento de amor esteja ou não presente. (...) não só é possível como necessário que uma pessoa que ama evite agir com base em sentimentos de amor. (...) O verdadeiro amor não é um sentimento pelo qual sejamos ultrapassados. É uma decisão empenhada e ponderada.
(...)
Quando nos esforçamos, quando damos mais um passo ou andamos mais um quilómetro, fazêmo-lo em oposição à inércia da preguiça ou à resistência do medo. (...) O amor, então, é uma forma de trabalho ou uma forma de coragem. (...) Se um acto não for de trabalho ou de coragem, então não é um acto de amor. Não há excepções."

M. Scott Peck in "O Caminho Menos Percorrido"

sábado, julho 30, 2011

(Boa) Energia

O único CD que tenho dele nunca me deixou muito impressionada.

Mas ontem saí do concerto que ele deu no Cool Jazz Fest com uma sensação extraordinária, que perdura.
O modo como se entrega à interpretação, quer vocal, quer instrumental, transmitiu-me uma energia libertadora.

Deixo apenas um exemplo que, por não ser ao vivo, peca por defeito, mas é uma amostra do que fui sentindo ao longo do concerto de ontem.

Gostei muito, Jamie Cullum.


quarta-feira, junho 01, 2011

Pequenos nadas

Como subtítulo, este artigo poderia ter a frase “Dicas para ultrapassar a Crise”.

Não a crise externa, mas a crise interna. As pequenas crises individuais que se vão instalando dentro de cada um de nós, se nos deixarmos influenciar pela crise global.

São exemplos de medidas (com alguns recados para mim própria) que, acredito, se aplicadas com perseverança, ajudarão até a resolver a crise externa.


- Dê cor à sua vida. À mesa, nas saladas; nos objectos do dia-a-dia.




- Se a tristeza lhe bater à porta, não lha feche.

Deixe-a entrar. Mas não a impeça de sair.




- Valorize a família. Abrace os amigos. Procure a companhia de quem o faz sentir-se bem.

- Sorria mais. Ria melhor.






- Não se esforce por trabalhar mais horas.

Faça o seu trabalho hoje um pouco melhor que ontem.

E amanhã, esforce-se por fazer melhor que hoje.


- Economize um pouco todos os dias.

Se falhar algum, recomece no dia seguinte.







- Dê uso às suas pernas. Tire o pó à mochila que tem no armário e ponha pés ao caminho.



- Goze o sol. Mas não lamente a chuva.


- Plante: negoceie um talhão de terra, use o quintal, aproveite a varanda, ponha floreiras à janela.

Sinta a terra e as plantas todos os dias.


- Observe o mundo com os 5 sentidos. TUDO tem algo de bom. Procure com alma e com a mente aberta.


= Por muito torto que ande, encare a vida de frente =




Escolha as suas próprias medidas. Estas ou outras. Uma de cada vez, todas ao mesmo tempo. Ao seu ritmo.
Mas não filosofe, não pense demais: passe à acção.

quinta-feira, março 31, 2011

(Re)aprender a estar

Estar. Uma habilidade natural, com a qual todos os seres humanos nascem.

Mas que uma boa parte de nós perde ao longo da vida…

Na minha busca para reencontrar esta habilidade, encontrei no livro “Aprenda a meditar” de David Fontana, algumas orientações valiosas.

Mas nada como a citação de algumas das passagens que mais me chamaram a atenção para espelhar o que me vai na alma.

“Calma e Silêncio. (…) Vivemos num mundo tão poluído pelo ruído como pelos resíduos tóxicos. Raramente conseguimos ouvir sem entraves os sons do mundo natural. A forma moderna de viver separa-nos das nossas raízes. Ao longo dos séculos da nossa existência neste planeta, evoluímos em constante contacto com um silêncio dentro do qual os sons do vento, da água, da chuva e do canto das aves tocam, de tempos a tempos, como num vasto anfiteatro. Só nos últimos cerca de 200 anos renunciámos aos sons naturais a favor do ruído artificial das máquinas, que não oferecem beleza nem harmonia à mente e ao espírito.

As grandes tradições sempre nos aconselharam a voltarmos, de vez em quando, ao mundo natural, caso pretendêssemos aumentar a nossa força e compreensão interiores. Alertam-nos, até mesmo, para o facto de evitarmos a tagarelice inútil (…)

Uma boa parte de nós tem receio do silêncio e anseia por enchê-lo de som. (…) No entanto, a experiência do silêncio é tão necessária para a nossa saúde física e psicológica como a experiência da comunicação aberta, honesta e estimulante. (…) O silêncio faz parte dos nossos direitos adquiridos com o nascimento (…)

Ainda acerca do estar, aliado à identidade e à consciência do ser:

“ (…) sempre que meditamos tornamo-nos conscientes de que, embora tenhamos (…) pensamentos e sentimentos, eles não são quem nós somos. (…) A verdadeira identidade está para além destas experiências transitórias.”

“Tudo o que temos é o instante de cada momento presente. As preocupações com o futuro e a inquietação exagerada com o passado são consideradas distracções artificiais da experiência directa da vida.”

“(…) a meditação produz uma perda do significado que habitualmente atribuímos à identidade pessoal – de facto coloca-nos perante esse significado mais alargado do Eu, o qual sai da sua condição de coisa interna para abraçar a totalidade da criação e com a convicção de que o amor universal sustenta e une todas as coisas.”

domingo, março 20, 2011

Satisfação bio-poética

No início de Fevereiro fui a um curso de Horta Biológica.
O formador ofereceu-nos, no final, algumas hortículas, que eu coloquei numa floreira na varanda, ao pé das minhas bonsai.

Entre elas estavam duas alfaces.

Hoje provei a primeira.
Dá algum trabalho, leva tempo e o que rende, em "regime de varanda" deixa, obviamente, a desejar.
(Pelo menos, por enquanto...)

A dita alface era pequenina, mas a satisfação foi imensa!

Desde o "berço" até pronta para o prato, aqui fica a poética mas gratificante viagem da minha primeira hortícula biológica:


quarta-feira, fevereiro 23, 2011

Prece: espiritualidade e improviso

Há tempos assinei uma revista muito interessante, a Bonsai Focus.

Por uma razão ou outra deixei de o fazer, tirando mais partido hoje em dia de impulsos como o que me levou a comprar o número de Janeiro/Fevereiro de 2010. Temas com cerca de 1 ano, portanto. Mas o que me chamou a atenção foram precisamente palavras intemporais: dois dos artigos que lá se encontram disponíveis acabam por revelar, em conjunto, um pouco do que considero ser o modo como se devem abordar todas as questões, seja no Bonsai, seja na Vida.

“O Bonsai leva o seu tempo” “Uma árvore tem de ser educada como se de uma criança se tratasse.” “O Bonsai ensina-nos a paciência e transmite-nos a alegria de ter a Natureza perto de nós.” “Prática, prática, prática (…) Não é possível ter uma árvore bonita sem trabalho continuado”. São algumas das frases de um desses dois artigos, que refiro no Blog “Os meus projectos”, com o título “The Spiritual Way”. Ao mesmo tempo, outro artigo falava de um trabalho em particular, com um título que me agradou: “It’s like Jazz”. Neste, o autor diz que há que dar espaço para a árvore falar connosco, deixar fluir o trabalho e improvisar à medida que isso acontece…


Espero ter a espiritualidade necessária para conseguir perscrutar o caminho que o Universo vai traçando para mim e inspiração o quanto baste para improvisar enquanto o percorro.

sábado, outubro 09, 2010

Comer Orar Amar

É tudo uma questão de equilíbrio.

Equilíbrio interior, equilíbrio com os outros, equilíbrio do Universo... no fundo, por muitas voltas que se dê, vai sempre dar a, simplesmente, equilíbrio.

À saída do cinema, ouvi expressões do tipo "mais do mesmo", "tanta volta para ir dar ao mesmo sítio" ou "haja paciência". Admito que o filme tenha demasiados elementos ditos "hollywoodescos" (cores muito vivas, quase tudo certinho, "onde é que ela vai buscar o dinheiro para tudo isto?" e por aí fora...), o que causa uma impressão de lhe faltar alma.

Mas a mensagem está lá.

Para quem a quiser compreender.

Para quem tiver a capacidade interior de a compreender.

Senti-me triste por me parecer que aquelas pessoas possam estar a deixar escapar a oportunidade de se deixar tocar ou, pelo menos, de questionar o que é que a autora do livro pretende transmitir, dando o benefício da dúvida ao filme e concentrando-se na mensagem em si.

Enfim...





Só uma nota final: o aparente completar do ciclo, que levou aos comentários referidos, fez-me lembrar um outro filme que me paira na memória de há muito para cá. "Primavera, Verão, Outono, Inverno... e Primavera", do realizador sul-coreano Kim Ki-duk.


Também a narrativa é aparentemente cíclica. E digo aparentemente, porque nada é cíclico: entre uma volta e outra há evolução, o que torna as coisas tridimensionais. Logo, em vez de um círculo, temos uma espiral. E um ciclo é, na verdade, uma volta da espira.

Nada regressa ao que era.
Mas em tudo há um equilíbrio a atingir.

quinta-feira, setembro 23, 2010

Saudade do que não se conhece

Um amigo uma vez escreveu "tenho saudades dos lugares que nunca conheci".

Em jeito de resposta, eu acrescentei que "gosto de regressar, de quando em vez, aos lugares onde nunca fui. sinto-me lá bem. e descubro sempre algo de novo, que me faz manter a saudade de nunca lá ter estado."

A Maternidade é um desses lugares.
E o poema desta canção espelha bem o que sinto quando tenho saudades desse lugar que considero fantástico.



"Mothers have woven a black velvet ocean
And spread it between the night and day shores
So that children might sleep, gently rocked by the motion
Of waves beneath boats built by fathers like yours

With you safe aboard by the shore we will linger
And watch as your breathing it fills up the sail
You loosen the moorings, you grip on your finger
And leave on the velvet a silvery trail

Alone on the shore with our heart close to breaking
We stand in the wake as you glide from our reach
Calmed by the thought that the voyage you're taking
Will bring you at dawn back safe to this beach

We cannot sail with you, be there to guide you
Or pilot your boat through the black of the night
But no ocean can keep you, no darkness can hide you
Away from our love and its undying light"

segunda-feira, julho 12, 2010

Jazz no Feminino

Fui ouvi-la (e vê-la) na passada 3ª feira ao CCB.

Não conhecia e fui atraída para o seu espectáculo apenas com uma ponta de melodia ouvida num anúncio na rádio: seduziu-me por completo. E, ao vivo, não me deixou ficar nada mal.

Nada mal mesmo…



De gestos longos e voz lânguida, com uma presença envolvente, divertida, cativante.




A juntar à linha das minhas preferidas:

a incontornável e inigualável arte de Billie Holliday

o alegre swing de Ella Fitzgerald

a perturbante e magnética angústia na voz de Elis Regina

a sedutora maturidade de Patricia Barber

a terna inocência de Lisa Ekdhal

a doce irreverência de Silje Nergaard

a bela surpresa que foi a musicalidade de Barbara de Dominicis, dos Cabaret Noir

a leve e fresca China Forbes, dos Pink Martini

ah! e, at last but not least, a suave tranquilidade de Madeleine Peyroux


E isto sem contar com algumas das saborosas vozes brasileiras que me deleitam com interpretações de jazz/bossa-nova e com as excelentes vozes que temos por terras Lusas



Cada vez gosto mais de Jazz no Feminino


Fica aqui um cheirinho:

Para quem queira saber mais (e escutar): http://www.melodygardot.com/

segunda-feira, maio 31, 2010

Surya Namaskar

Para quem necessita de iluminar o seu interior.
Ou, simplesmente, para quem gosta de saudar o Sol.

Namaste!


Música: "Só o Sol", de Viviane
(Imagens da minha autoria)

segunda-feira, maio 17, 2010

A proximidade que vem de longe...

Talvez arrastada pelas raízes do mundo do Bonsai e pelo crescente interesse pelo Oriente que este me vem suscitando, assisti, nos últimos dias, a dois espectáculos na Fundação do Oriente com origem japonesa.

Kokusyoko Sumire foi o primeiro: um duo inenarrável, cuja sonoridade me deixou desconfiada a princípio, mas que acabou por me proporcionar uma noite, no mínimo, suis generis. Mas, sem dúvida, muito divertida!

Segundo o próprio site da Fundação publicitava, "Opereta, música cigana, cabaret, balada japonesa, J-pop ou visual-kei? As Kokusyoku Sumire (Violeta Negra) apresentam um espectáculo que mistura um pouco de todos os estilos."


Já num registo muito distinto, deixei-me levar novamente pela curiosidade do que vem do País do Sol Nascente na selecção do programa a ver dentro das escolhas do FIMFA (Festival Internacional de Marionetas e Formas Animadas): Awa Deco Hakomawashi wo Fukkatsusuru Kai (Associação para a Renovação de Hakomawashi de Awa).


Um espectáculo com 300 anos de idade, de seu nome Sanbasoumawashi, recuperado e actualmente feito por três pequenas-grandes senhoras que carregam às costas umas caixas de madeira com quatro marionetas do tamanho de uma pessoa e os instrumentos necessários à sua performance pelas montanhas de Shikoku e que, desde o minuto zero de um novo ano até ao final do mês de Janeiro, visitam cerca de 900 casas para desejar sorte às gentes daquela região através da realização de uma pequena peça, com sons, danças e preces, plena de simbologia, com as ditas marionetas: Senza, Okina e Sanbaso (colheitas abundantes e saúde) e Ebisu (prosperidade no negócio).

Igualmente divertido. E inspirador.

quarta-feira, março 17, 2010

Protesto contra o estado em F maior

Nesta época de Faz-de-conta, de Facilidades e Futilidades, de Fragilidades do sistema, Fraquezas individuais e colectivas, Falsas promessas, argumentos Falaciosos e Focalização no cliente, já me faltam a paciência e os Fígados para aguentar tudo isto.

Aos três "F" atribuídos ao Portugal do passado - Fado, Fátima e Futebol - vi algures a referência ao 4º "F" dos dias de hoje: o Facebook.

Pois acrescento um 5º "F", muito pessoal e vindo de dentro...
.
.
.
... estou Farta...

segunda-feira, janeiro 25, 2010

quarta-feira, janeiro 20, 2010

Jazz - Pedaços de História

Um sedutor de Nova Orleães com passado de proxeneta. Pianista de enorme originalidade, afirmou falsamente ter inventado o Jazz. Mas foi o primeiro a demonstrar que esta música se podia escrever.

O filho super protegido de um casal da classe média, que transformou uma orquestra de músico extraordinários no seu instrumento pessoal, compôs quase duas mil peças de música para ela e tornou-se o maior compositor da América.

Um filho de emigrantes judeus russos dos bairros pobres de Chicago, que aprendeu clarinete para não andar com más companhias, veio ensinar um país inteiro a dançar.

A filha de uma criada de Baltimore cujo estilo inconfundível transcendeu as limitações da sua voz e transformou repetidamente música medíocre em Arte.

O filho de um funcionário dos Caminhos de Ferro de Kansas City foi para Nova Iorque para lançar uma revolução musical, liderou-a orgulhosamente durante um breve período, e destruiu-se aos 34 anos.

O filho problemático de um dentista de East St. Louis que, na busca de novos caminhos para o som, se tornou o músico mais influente da sua geração.

E há também um miúdo pobre das ruas de Nova Orleães, cujo génio ímpar ajudou a tornar o Jazz uma Arte de Solistas e que influenciou todos os cantores e instrumentistas que vieram depois dele. Aquele que, por mais de cinco décadas, fez quem o ouviu sentir que, por muito más que as coisa estejam, tudo acabará bem.

Tirado de “Jazz. A história, por Ken Burns”. Uma pérola que descobri esquecida numa prateleira.

“Jelly Roll” Morton (1885-1941), Duke Ellington (1899-1974), Benny Goodman (1909-1986), Billie Holliday (1915-1959), Charlie Parker (1920-1955), Miles Davis (1926-1991), Louis Armstrong (1901-1971). Alguns dos grandes nomes dos Homens e Mulheres que contribuíram para a História do Jazz. Únicos. Humanos. E, por isso mesmo, Grandiosos.

domingo, janeiro 03, 2010

Novo Ano


A lógica diz-me que um novo ano é apenas um agrupamento de dias, semanas e meses que se repete, em continuação do agrupamento anterior, como a água que corre num rio.

Mas dita o sentimento conjunto e generalizado que, quando se inicia um destes novos agrupamentos, se inicia também um novo ciclo na Vida. E, a algo de novo, associa-se sempre uma renovada esperança de melhoria ou, quanto mais não seja, de manutenção das coisas boas que ficaram do ciclo anterior.

Li outro dia uns votos de feliz ano novo que classificava 2009, sob a perspectiva do Zodíaco Chinês, como um típico ano da Vaca (um ano de coragem, paciência e convencionalismo) e previa dinamismo e sorte para o ano do Tigre, 2010.

Pois o meu desejo é que esta nova etapa seja não uma rotura total com o ano que passou, mas uma continuação da coragem e da paciência, com um renovado dinamismo e uma pitada de sorte, que dá sempre jeito.

Que o novo ano traga a todos motivos para não esquecer as lições do passado e continuar a ser feliz!

terça-feira, dezembro 08, 2009

Pink Martini e China Forbes

Pink Martini é o nome de um dos meus grupos de eleição e o tema para o meu artigo de hoje.

Têm uma discografia curta para os anos de existência, mas quem não se lembra do coro “Je ne veux pas travailler” (em “Sympathique”). Música muito descontraída e bem disposta, com todos os ingredientes necessários para alegrar a vida.

Num destes sábados, no “Hotel Babilónia”, um programa também ele muito bem disposto da Antena 1 (Pedro Rolo Duarte e João Gobern), soube do último CD deles: “Splendor in the grass”, tal como o filme de Elia Kazan.

Ao indagar o que é que este filme de 1961 teria em comum com a música do grupo, deparei-me com uma aparente incongruência: tal como o seu fundador refere no site oficial do grupo (http://pinkmartini.com/about), “Pink Martini draws inspiration from the romantic Hollywood musicals of the 1940s or ‘50s” mas, na descrição do filme que li no livro “1001 filmes para ver antes de morrer”, o filme é caracterizado por ser “uma película na qual as personagens se definem como indivíduos autênticos, actuando e reagindo num registo muito longe dos clichés de Hollywood”.

A incongruência é apenas aparente porque, tal como referiu João Gobern, os Pink Martini fazem “music of the world” sem ser “world music”. E sem sombra de cliché, pelo menos na minha opinião.

Consideram-se a si próprios como “musical archeologists”, inspirando-se em géneros tão variados como a música erudita (ou dita “clássica”), jazz e pop (old-fashioned pop, como referem no site).

Os Pink Martini foram fundados como uma pequena orquestra em 1994 por Thomas Lauderdale, numa senda suis generis de música para causas políticas.

O seu primeiro álbum (justamente “Sympathique”, de 1997) foi lançado independentemente com uma etiqueta própria: a Heinz Records (nome do cão de Lauderdale).

São constituídos por doze músicos e o seu reportório multilingue (quer em termos de letras, quer em termos de ritmos) engloba quer originais quer temas já existentes (e habilmente adaptados). Tiveram a sua estreia na Europa no Festival de Cinema de Cannes e já tocaram com 25 orquestras em vários países do mundo.

Para a diversidade dos seus temas contam com a diversidade dos seus membros: percussionistas com “raízes” no Brasil e no Peru, um trombonista que fala alemão e um violoncelista que fala mandarim e, como diz em em inglês, “at last but not least”, uma vocalista que estudou francês e italiano e canta em 15 línguas diferentes…

China Forbes é o nome da “senhora” que Lauderdale conheceu quando estudavam em Harvard e depois convidou para dar voz ao projecto.

E que voz… Já a conhecia, mas, no mesmo programa da Antena 1 acabei por saber também que ela tinha lançado um álbum a solo: ’78 é o seu título.

Comprei e gostei.

Um pop um pouco fora do que é meu hábito ouvir, mas a sua voz é tão bonita e as músicas tão leves que me seduziu na sua totalidade logo à primeira.

Em duas palavras, cristalinamente simples.

segunda-feira, novembro 09, 2009

A Dama de Ferro

300 metros de altura (320,75 metros com a antena). 7000 toneladas de peso, incluindo 40 de tinta. 15 mil peças de aço e 1652 degraus.

A Torre Eiffel em números. Do topo, o ponto mais alto de Paris, tem-se uma vista panorâmica da cidade. De tirar o fôlego, mas também de incutir algum enjoo ao visitante de estômago sensível.

Concebida por Gustave Eiffel (Dijon, França. 1832-1923) para a Exposição Universal de 1855, esperava-se que durasse cerca de 20 anos e já lá vão 120.

Depois da construção da Torre, Eiffel dedicou-se a estudos científicos nos campos de meteorologia, radiotelegrafia e aerodinâmica. Tinha um pequeno apartamento com um gabinete no topo da Torre, preservado até hoje num testemunho ao estilo de um pequeno museu (apenas visível do exterior).

Tinha uma ideia de lugar comum. Algo do género “toda a gente fala mas, se calhar, até nem é nada demais”. Enganei-me: conquistou-me. De um modo que os Parisienses não conseguiram. Apesar de metálica e muito imponente, consegue ser mais calorosa que eles…

E não me saía da ideia aquele filme (“French Kiss”, se a memória não me falha) em que a Meg Ryan passa o tempo todo a querer vê-la e ela lá, aparecendo em todas as esquinas, espreitando por cima das casas, vislumbrando-se ao fundo de cada rua. É realmente uma presença constante. Valeu a pena subir ao seu 2º patamar pelas escadas e enjoar no seu topo, após uma subida insípida num elevador apinhado de turistas e com um “guarda-freios” tipicamente parisiense. Só tive pena de não estar o céu mais limpo…



Para quem tiver curiosidade em saber mais: http://www.tour-eiffel.fr/index.html

domingo, setembro 27, 2009

Direitos, deveres… Liberdade?

O meu Pai ensinou-me que a nossa liberdade acaba onde começa a liberdade de outrem.

Considerando uma reciprocidade matemática, o contrário também deveria ser verdade.

Mas, neste nosso mundo dito democrático, como se processam estas premissas?

Vejamos o “direito à greve”. Com a greve dos pilotos nos últimos dias da semana, várias foram as opiniões de utentes revoltados. Falo por mim: reserva na TAP para um voo para Bruxelas quando a Air Brussels também tinha um horário que se coadunava com as necessidades. Porque é um produto português e há que apostar no que é nacional. O que se ganhou com isso? Vontade de apostar no que é Europeu, da próxima vez: quem comprou bilhete na Air Brussels foi para Bruxelas (negócios, trabalho, lazer, não interessa o que lá iam fazer, mas chegaram ao seu destino); quem apostou no que era nacional, ficou 4 horas à espera do que iria ser decidido por um grupo de pessoas que, segundo ouvi dizer, nem os próprios colegas de trabalho (pessoal de bordo) avisava com alguma antecedência… A confirmação de “não descolo porque estou de greve” era efectuada ao último minuto.

A liberdade dos pilotos da TAP em fazer greve chocou de frente com a minha liberdade de poder usufruir de um serviço que se encontrava contratado… e pago. E que implicou uma série de consequências individuais que, aumentadas à escala da quantidade de pessoas implicadas, prejudicou não só a empresa alvo da greve, mas muitas outras entidades e até, em última instância, o país.

Direito? Há outras formas de luta… Acho que assim não se vai a lado nenhum…

Agora vejamos o “dever de votar”. Houve um punhado muito razoável de pessoas que lutou por aquilo que achavam certo – a instalação de um sistema democrático em Portugal. Mas… o nosso sistema democrático não se baseia no voto? 40% de abstenção numa eleição para o Parlamento?? Onde ficam os deveres de cidadão? Saímos de um regime em que decidiam por cada um de nós, e agora desresponsabilizamo-nos com esta facilidade?!

A liberdade não é só direitos: implica necessariamente a responsabilidade de cumprir deveres.

Algo está muito errado neste nosso sistema.

Não tenho sugestões de alteração, confesso, mas já é altura de mudar.

Considerando direitos e deveres.

E não utilizando a palavra “Liberdade” de uma maneira leviana.